27 outubro, 2010

Eugénio de Andrade

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,porque ao teu ladotodas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhoseram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,tenho a certezade que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nomeno silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

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